Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Diário de uma mulher simples

A vida como ela é.


Sábado, 07.09.13

Sábado, 7 de Setembro de 2013

Um diário supõe um registo diário mas não consigo cumprir. Não posso exigir mais de mim. Fiz um acordo tácito com a minha pessoa: o incumprimento irá desaguar num resumo semanal. Tentarei não ultrapassar este espaço temporal. (Já o ultrapassei!) Não vou exigir muito de mim. Caminharei ao sabor do vento.
Os trabalhos em casa da minha mãe continuam. A garagem está quase pronta. Falta só uma segunda passagem. A primeira demão não conseguiu cobrir as manchas. Tudo aponta para a conclusão rápida. Parece ser hoje. A ansiedade da minha mãe ajuda. O meu primo tem realizado um trabalho óptimo. É incansável! E perfeccionista! Tem respondido favoravelmente à pressão da tia materna. E não é fácil.
Ontem, saí da cidade após muitas semanas encerrada em casa. Fui levar a minha filha â praia. Falta de planeamento. Toque do telefone. Notícia de última hora. Não tem jantar. Condução já iniciada. Nada a fazer. Frustração e revolta do mais velho. Telefone desligado repentinamente, Irritação da irmã.
A tarde desce lentamente. O sol fere os olhos com as suas espadas brilhantes. Paragem na gasolineira. Um preço mínimo de combustível. O suficiente. Ida e volta.
Foi uma oportunidade excelente para rever a localidade onde passei os verões da minha infância. Encontrava-se debaixo da cortina pesada e fria da noite. O mar parecia um lago visto do paredão. Tão inofensivo! (E conheço o seu temperamento irascível e imprevisível para os incautos e os audazes.) Pequenas ondas negras, brilhantes à luz oblíqua dos candeeiros, corriam para a areia como pequenos magotes de pessoas. Parecia abrir-me uns saudosos braços. Deixei-me envolver. O vento fustigava o meu rosto. O bafo húmido apertava-me. Um arrepio percorreu a mulher ao meu lado como um raio. Um queixume lançado ao ar cortou o burburinho das vozes noctívagas. Absorta, abro o coração encriptado às águas pintadas de negro pela mão da noite. A ligação emocional desprendeu-se como um papagaio de papel ao vento. Poderia ficar ali eternamente. O grupo avançou na claridade húmida.
Escolheu-se um café da avenida. O ar morno digladiava-se contra o desconforto da rua. A luz e o ar morno temperavam a atmosfera calma. A hora avançada apagara a clientela. Só os aventureiros permaneciam. Bifanas para todos. Alegre conversação. Uma telenovela morrendo lentamente no televisor. Guardei a minha filha mais uns minutos junto de mim. Não seria por muito mais. Os jovens enfrentaram a escuridão rumo a um destino secreto. Sigo as suas pisadas diluídas no ar frio. Completo o círculo da caminhada. A minha infância revivida numa hora. As mesmas rochas encobertas, o eterno rio escorrendo para o mar, os elegantes pinheiros, a mesma estrada, o bar de face recuperada. Acima, um céu escutando o sussurro marítimo. A paz invadindo o mistério das almas.
O regresso. O café aguçou os sentidos. O descanso branco. O sono partiu. A estrada rasgada pelos faróis. Os quilómetros engolidos pelo motor. A solidão na corrida trespassada pela música. O ciclo da vida semeado na conversa. A cabeça loira abatida pelo vigor do sono. A chegada. O som das portas batidas esvoaçando. A porta. A entrada. O reencontro com o aconchego do lar. A descoberta. O sono estendido no colchão. Uma forma adolescente dobrada. Os caracóis escuros espalhados na fronha colorida. O rebento. Estendo-me a seu lado. Enfrento a acalma de um sono irreconciliável. Debato-me com a cafeína, amiga das horas ao volante. As brincadeiras dos gatos. Os ruídos. A impaciência. A entrada num mundo desconhecido. O sono vigília. A madrugada indomável vestida de um branco sujo. A inclinação dos eucaliptos. A nitidez crua da fotografia da janela. A coloração do pincel solar. O nascimento da manhã.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por fatimanascimento às 12:00


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Setembro 2013

D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
2930



Arquivo

2013